Diretoria de Comunicação e Desenvolvimento - VICOM - (28/07/2010)
ECONOMIA
SERVIÇO
Valor Econômico - 28/07/2010
Bancos estão em armadilha cambial
O mercado de câmbio está numa armadilha. Os principais agentes financeiros mantêm posições exacerbadas que conflitam com a tendência da taxa de câmbio e não parece haver saída fácil para evitar prejuízos. Alguém vai perder.
De janeiro até 22 de julho, o saldo cambial positivo já era inferior a US$ 500 milhões - cifra que pode ser zerada por qualquer saída mais forte de moeda. Os exportadores, que seriam provedores naturais de dólares ao mercado, estão mantendo, segundo estimativas de especialistas, algo entre US$ 15 bilhões e US$ 30 bilhões no exterior. Enquanto isso, bancos nacionais e estrangeiros estão sustentando inéditas posições vendidas nos mercados à vista e futuro, apostando na queda do dólar contra o real.
As posições vendidas no mercado à vista rondam US$ 13 bilhões e, no mercado futuro, US$ 8,53 bilhões, levando-se em conta contratos de dólar e cupom cambial -- trata-se da posição mais elevada desde 28 de julho de 2008.
Os exportadores, neste momento, estão usando a prerrogativa legal que lhes permite manter no exterior até 100% de suas receitas, ou porque estão utilizando os recursos para honrar compromissos ou porque o preço do dólar no mercado doméstico não convém para a troca de moeda. Os exportadores poderiam repensar mais rapidamente sua estratégia e internalizar os dólares se a moeda americana subisse, calculam analistas. Mas, se o dólar subir, os vendidos nos mercados à vista e futuro terão prejuízos.
O Banco Central, que já sondou os "dealers" de câmbio sobre a possibilidade de vender os chamados "swaps reversos" (instrumento derivativo com efeito de compra de dólar) e não entrou no mercado, poderá ser forçado a agir, caso os bancos estrangeiros decidam alegar que não possuem mais linhas de crédito para financiar as exportações brasileiras. O risco existe.
O desconforto do mercado vem crescendo sobretudo com a expansão das posições vendidas dos bancos porque o cenário está mudando e pressões para a alta do dólar são identificadas. Cresce também a inquietação com o recado que o BC pode estar mandando ao mercado ao não agir. Um entendimento considerado é que, ao não agir, o BC pode estar sugerindo que o custo de carregamento das posições em câmbio realmente caiu, levando-se em conta um ciclo menor de alta da Selic. Situação em que pode valer a pena ficar vendido.
"O ambiente sugere que o dólar subirá ante o real. Vemos o investimento externo direto cadente, as aplicações em portfólio não são exuberantes e as remessas de lucros e dividendos estão fortalecidas. Portanto, o quadro é de menor ingresso e maior saída de dólares", comenta Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora de Câmbio, para quem não há crise cambial à vista, mas um fluxo cambial que deixou de ser benigno para o país.
João Medeiros, sócio diretor da Pioneer Corretora, concorda que o mercado está numa armadilha e considera que o Banco Central acabará intervindo nos negócios. "Existem duas alternativas. O BC pode vender os swaps reversos (com efeito de compra de dólar futuro) ou vender dólares no mercado à vista. Isso é o que se espera, levando-se em conta as declarações da instituição de que não se preocupa com a taxa de câmbio ou de juro, mas sim em evitar distorções no mercado. Estamos assistindo a uma distorção na taxa que inclusive desfavorece os exportadores", comenta Medeiros.
Mas o que leva ou levou a essa distorção? Entre as teorias, duas se destacam no mercado. Parte dessa forte venda a descoberto de dólar teria sido estimulada pela expectativa com relação ao processo de capitalização da Petrobras, que traria uma enxurrada de dólares ao país. Acontece que o aumento de capital foi postergado de julho para setembro e já pipocaram notícias sobre a possibilidade de um novo atraso para depois do período eleitoral.
A segunda teoria, menos amistosa, considera que o BC teria estimulado a formação das posições vendidas no mercado futuro. O raciocínio aqui é o seguinte: ao seguir comprando dólares dentro de um ambiente de fluxo cambial negativo, o BC força a montagem de posições vendidas (em última análise, isso ajuda a controlar a inflação via câmbio). O fluxo cambial acumulado no ano, até 16 de julho, mostra resultado positivo de US$ 1,33 bilhão. No entanto, as compras do BC no mercado à vista totalizam, no mesmo período, US$ 14,70 bilhões. Portanto, o que ficou no mercado é uma conta negativa de US$ 13,37 bilhões - não por acaso, número quase idêntico à posição vendida dos bancos no mercado à vista.
Uma das estratégias dos vendedores é tomar dólares no mercado externo a um custo baixo, vender essa moeda para o BC nas intervenções à vista - afinal ele é comprador de última instância- e utilizar os reais para dar crédito ou investir em juros, por exemplo. Ou seja, os bancos encontraram uma forma barata de captar reais. Mas, para que essa operação seja bem sucedida, os bancos têm que valorizar o real para rentabilizar sua posição vendida, ou seja, no final das contas, ao comprar mais dólares que o fluxo, o BC dá uma força aos bancos e indiretamente fomenta a valorização do real.
A sensação do próprio mercado é de que essa estratégia chegou no seu limite. Os bancos parecem saber desse estreito potencial de valorização do real e mostram que não querem ampliar, ainda mais, a posição vendida. Sinal claro disso foi dado na semana passada quando o BC comprou apenas US$ 116 milhões nos leilões à vista.
O que os bancos precisam, agora, é de fluxo de dólares para zerar essa posição. Como conseguir isso? Uma possibilidade é deixar a taxa apreciar para que os exportadores tragam moeda de fora, viabilizando o início da zeragem de posições dos vendidos. O problema é que esses vendidos terão prejuízo. Se nada acontece, ou seja, a moeda segue ao redor de US$ 1,75 a US$ 1,76, a demanda por dólar sobe e, consequentemente, seu preço aumenta, o que, novamente, resulta em prejuízo para os bancos.
No mercado futuro, os estrangeiros já pedem "socorro" para sair ou reduzir a posição vendida. Daí os relatórios comentando a necessidade do swap reverso. A ideia aqui é utilizar o BC como comprador de moeda para ampliar a posição vendida e, com isso, derrubar a cotação para posteriormente zerar a posição a um preço mais barato.
Como o BC fica no meio disso tudo? Pode vender os swaps e "ajudar" os investidores estrangeiros a sair da posição ou vender moeda à vista e "ajudar" a cobrir as posições dos bancos nacionais. Qualquer que seja a escolha, o BC estará sujeito a críticas por estar premiando tomadores de risco ou especuladores. A estratégia recomendada por alguns especialistas é o BC ficar quieto e sair até do mercado à vista. Afinal, se o mercado se meteu nessa confusão, nada mais justo que encontre uma saída.
Valor Econômico - 28/07/2010
Bancos públicos dão crédito ao pré-sal
Os bancos públicos entraram com força no pré-sal. Depois de o Banco do Brasil estruturar uma área para atuar com empresas fornecedoras da Petrobras, agora é a vez da Caixa Econômica Federal criar uma superintendência regional específica para atender à cadeia de petróleo e voltar a conceder empréstimos diretamente para a estatal.
Os dois bancos estão interessados num setor que deve atrair US$ 220 bilhões nos próximos anos, segundo estimativas oficiais, e que movimenta cerca de 80 mil empresas dentro da cadeia produtiva do óleo e gás. De acordo com o superintendente da Caixa, Edalmo Porto Rangel, o próprio governo tem estimulado esse trabalho conjunto.
"As estatais brasileiras sempre tiveram uma certa falta de sincronia. De uns tempos para cá, o próprio governo tem determinado às estatais que trabalhem de uma maneira mais convergente, mais integrada, mais alinhada. Isso é positivo, porque BNDES, Caixa, Petrobras e Banco do Brasil são empresas de muita força."
A Superintendência Petrobras/BNDES, alocada num prédio próximo à estatal, foi criada em fevereiro para atuar no financiando desde pequenos fornecedoras até estaleiros interessados na expansão do setor. A nova divisão da Caixa já conta com R$ 2 bilhões em projetos concluídos ou em análise para este ano.
O relacionamento mais estreito entre a Caixa e a Petrobras começou em 2008, num episódio bastante criticado pelo mercado, quando a instituição financeira socorreu com R$ 2 bilhões a petroleira, que enfrentava problemas de liquidez. Desde então, a proximidade foi se ampliando, até a criação da área exclusivamente dedicada ao setor.
No mês passado, nova concessão foi feita à Petrobras, por meio de uma nota de crédito à exportação (NCE), também de R$ 2 bilhões - operação identificada pelo Banco Central como uma das grandes transações que puxaram os dados de empréstimos às empresas no último mês.
Já no Banco do Brasil, a área de petróleo e gás é mais antiga, de 2007, e o saldo de empréstimos girava ao redor de R$ 2 bilhões, de acordo com dados do primeiro trimestre, diz Walter Malieni, diretor de crédito. O BB também tem R$ 2,5 bilhões em operações com funding do Fundo da Marinha Mercante (FMM) - recentemente capitalizado pela União.
O BB tem mais experiência em financiar grande projetos. A Caixa, ao contrário, sempre trabalhou repassando recursos para obras já iniciadas, como na construção civil, por exemplo. Para financiamento da infraestrutura de portos e navios, no entanto, a instituição terá de adiantar recursos, coisa que nunca fez.
Para dar conta da nova missão, a Caixa prepara o primeiro empréstimo da sua história com créditos a performar, que deve sair em setembro. "A área de risco está avaliando como fazer. Temos três pilotos com empresas para testar a solução. Até setembro devemos começar a usar a nova modelagem tanto com recursos próprios quando de repasses do BNDES", explica Rangel.
O foco, num primeiro momento, serão pequenas e médias empresas, mas a instituição também pretende concluir, até o próximo mês, a filiação ao FMM, para financiar operações de grande porte, como estaleiros. "Começam a estudar os projetos e avaliar prazos, carência e taxas", continua Rangel.
Ainda assim, esses recursos não serão suficientes, diz Rangel, e a Caixa também estuda formas alternativas de funding. "Mesmo se os bancos se unissem, o crédito típico apenas não seria suficiente para financiar os investimentos do pré-sal. Vamos ter de buscar recursos no mercado de capitais, com outras engenharia financeiras", afirma.
O primeiro Fundo de Investimento em Participações (FIP), de R$ 400 milhões, já está em operação para financiar a construção de sondas. Um novo fundo, de R$ 1,5 bilhão, deve sair até setembro, com aplicações de investidores institucionais, para atuar em todo o setor de óleo e gás.
A Caixa quer ainda fomentar o desenvolvimento urbano das regiões com exploração de petróleo para evitar que o fenômeno de degradação ocorra nas cidades onde a exploração será intensa. Para isso a instituição quer financiar a infraestrutura e a habitação em locais onde serão construídos estaleiros e complexos petroquímicos, como Suape, Rio Grande, Niterói, Natal, Salvador, entre outros.
Mesmo com todo o esforço dos bancos públicos, os investimentos destinados ao setor deram uma esfriada nas últimas semanas, por causa do adiamento da oferta de ações da Petrobras. "Os investimentos vão depender da capacidade de investimento da Petrobras. Há um burburinho porque o pessoal quer entender como fica a situação", diz uma fonte de mercado.
Folha de S.Paulo - 28/07/2010
Bancos vão buscar dinheiro na Ásia
Japoneses ficam com metade da dívida de empresas brasileiras, que pagam juro acima das taxas no continente
Principais bancos brasileiros fizeram roadshow neste ano para vender opções de investimento na Ásia
TONI SCIARRETTA
DE SÃO PAULO
JANAINA LAGE
DO RIO
O Japão se tornou o país que mais compra títulos de dívida de empresas brasileiras no exterior, refletindo o aumento do interesse asiático por aplicações no Brasil. Os japoneses levaram US$ 5,7 bilhões dos US$ 10,9 bilhões vendidos no mundo.
Essas empresas pagam juros de 6% a 11% -taxas impensáveis para países com juros de 0,1% (Japão), 2,25% (Coreia do Sul), 5,31% (China) e 4,5% (Austrália).
O crescimento do interesse asiático ocorre após vários roadshows de bancos brasileiros pela Ásia. Neste ano, aportaram no continente executivos de Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, BNDES e das unidades brasileiras do Citibank e do Santander.
Segundo Pedro Guerra, diretor do Citi Brasil, além da dívida privada os asiáticos buscam oportunidades em ações, fundos, títulos públicos e até empresas fechadas.
Na semana passada, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, foi ao Japão para assinar um memorando de entendimento para ampliar a parceria com o JOI, entidade que busca promover investimentos em outros países.
O último levantamento do JOI põe o Brasil em sexto lugar como destino de investimentos. Quando se excluem os vizinhos asiáticos, o Brasil fica em primeiro, à frente dos EUA e dos europeus.
Em abril, o Itaú abriu uma gestora de recursos em Tóquio, em que administra US$ 14 bilhões em fundos focados no Brasil -até 2008, eram US$ 500 milhões.
O Bradesco vai abrir um escritório ainda neste ano no Japão, onde tem parceria com o Mitsubishi para gestão de US$ 1,7 bilhão em fundos.
FUSO HORÁRIO
"O mercado asiático tem muita complementaridade com o brasileiro. Temos um dos juros mais altos, e eles, um dos mais negativos. A poupança deles é muito alta, e a nossa, baixa. Eles têm uma maturidade grande na infraestrutura e a nossa está engatinhando. Japão e Coreia do Sul têm uma população velha, e nós somos um país jovem. Até o horário é complementar, mas isso atrapalha...", disse Pedro Bastos, diretor da Anbima.
Até 2004, nas emissões de títulos do governo no exterior, a participação dos asiáticos não passava de 3%. Foi quando o então secretário do Tesouro, Joaquim Levy, decidiu iniciar os leilões à meia-noite e a demanda foi a 30%.
"Foi um sucesso. O asiático pegava o fim de feira. Não dá para exigir que o operador fique trabalhando de madrugada", disse Levy, hoje na gestora do Bradesco.
"Precisamos de uma infraestrutura para atender esse investidor. Não adianta vender se não tiver alguém aqui, durante a madrugada, para atender um telefonema. A Ásia está borbulhando... Esse investidor reconhece que pode aplicar com sossego no Brasil", disse Pedro Guerra, do Citibank.
O Ministério do Desenvolvimento programou para amanhã um seminário em Osaka (Japão), para "vender" oportunidades no país.
Segundo Eduardo Celino, da pasta, o Japão retomou o patamar da década de 1970 em importância nos investimentos no Brasil. Os fatores que ajudam a atrair a atenção dos asiáticos hoje, afirma, são as obras de infraestrutura, da Copa e da Olimpíada.
Correio Braziliense - 28/07/2010
Mantega minimiza deficit histórico
Ministro da Fazenda atribui rombo externo de US$ 5,18 bilhões ao crescimento econômico
Gabriel Caprioli
Um dia após o Banco Central (BC) anunciar o deficit de US$ 5,18 bilhões nas contas externas do país em junho, o maior valor mensal dos últimos 63 anos, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, convocou uma entrevista para minimizar os impactos do rombo. Para ele, o resultado negativo é uma consequência natural do crescimento da economia doméstica, num ano em que a maior parte dos países desenvolvidos prevê estagnação. "A primeira causa do deficit é o sucesso do Brasil em relação a outros países. Sofremos menos com a crise e estamos aumentando mais as importações do que as exportações", justificou, mostrando preocupação com a repercussão negativa da divulgação.
O raciocínio de Mantega é baseado no fato de que, toda vez que a economia vai bem, é necessário aumentar as importações de produtos e insumos para a produção nacional. Apesar de aparentemente serem motivadas por fatores positivos, as compras externas acabam por desequilibrar a balança comercial. Atualmente, enquanto as vendas externas crescem ao ritmo de 26,5% no ano, os desembarques acumulam avanço de 44,7%. Isso reflete o aquecimento doméstico e uma dificuldade dos exportadores em colocar suas mercadorias nos mercados tradicionais. "Nós temos mercado (interno) e ele continua crescendo, enquanto os mercados norte-americano e europeu não crescem", avaliou.
Segundo o ministro, além das importações, o bom desempenho da economia acaba custando mais caro ao país, uma vez que também é preciso elevar a contratação de serviços de transporte e o aluguel de equipamentos usados, por exemplo, por empresas como a Petrobras. "Claro que eu preferia que não houvesse, mas para evitar um deficit externo em ano de crise, só se crescermos 2% ao invés de 7%. Não vamos sacrificar crescimento para não ter deficit", afirmou. No acumulado no semestre, o buraco chegou ao recorde de US$ 23,76 bilhões, equivalente ao triplo do registrado no mesmo período de 2009 e quase empatando com o saldo negativo de todo o ano passado (US$ 24,3 bilhões).
Ineficiência
Para o estrategista-chefe do Banco WestLB no Brasil, Roberto Padovani, é razoável atribuir o salto no deficit externo à expansão do país, mas o argumento, em sua opinião, esconde a ineficiência da economia doméstica em relação ao volume investido. "O que foge ao debate é a incapacidade de promover crescimento sustentável", destacou. Na avaliação de Padovani, o Brasil não tem nível de investimento suficiente para sustentar uma atividade maior sem elevar as importações. "O deficit, em si, não é explosivo, mas mostra que o país pode crescer muito pouco por ano", considerou.
Outro fator que contribui para a piora nas contas externas, segundo Mantega, é a valorização do real frente ao dólar. Ela diminui a competitividade das exportações e motiva as empresas a remeterem lucros e dividendos(1) das filiais nacionais às suas matrizes estrangeiras. O ministro descartou a adoção de novas medidas para reduzir o poder da moeda nacional e disse acreditar que o próprio mercado deve regular a taxa cambial.
"O estrangeiro tem um grande interesse pelo Brasil, tanto via investimentos, quanto por fluxo financeiro, o que aumenta a oferta de dólares para o mercado doméstico. Mas, a médio prazo, a tendência é de desvalorização do real", estimou. A expectativa do ministro é de que o resultado negativo nas transações correntes desvalorize automaticamente o real. Nesse caso, o dólar mais forte deve favorecer o setor exportador e, ao mesmo tempo, desestimular o envio de lucros ao exterior.
1 - Remessas
O melhor desempenho do Brasil na crise levou filiais de multinacionais instaladas aqui a aumentarem o envio, para suas matrizes, de lucros e de dividendos. O valor de U$ 14,96 bilhões, resultado do lucro obtido pelas operações no país no primeiro semestre, ajudou as companhias estrangeiras a fecharem seus balanços e reforçarem seus caixas. Até o fim do ano, as remessas devem chegar a US$ 32 bilhões.
País capta no exterior
O Tesouro Nacional captou ontem US$ 750 milhões nos mercados europeu e norte-americano, com a reabertura do bônus da República Global 2021, com vencimento em janeiro daquele ano. O primeiro lançamento do papel foi realizado em abril, quando foram obtidos US$ 787,5 milhões em recursos estrangeiros.
A operação foi reaberta ontem pela menor taxa de juros já registrada para papéis denominados em dólares, 4,547% ao ano, o que significa que o governo terá que pagar aos investidores um retorno líquido menor. A emissão segue uma estratégia de melhorar o perfil da dívida externa do país. O bônus é considerado parâmetro para as captações das empresas brasileiras no mercado externo com o pagamento de encargos mais leves.
Com as duas etapas da operação, o montante total do Global 2021 circulando soma US$ 1,537 bilhão. O Tesouro pode estender a emissão em até US$ 75 milhões e deve divulgar o resultado final hoje. (GC)
Correio Braziliense - 28/07/2010
No limite do endividamento
Com o orçamento tomado por prestações, famílias começam a botar o pé no freio de empréstimos e crediários
Vânia Cristino
Victor Martins
Depois de se empanturrarem com as facilidades oferecidas por bancos e lojas, as famílias brasileiras decidiram botar um pé no freio no endividamento. Ao fazerem as contas, perceberam que a renda, mesmo em alta, já não comporta mais tantas prestações. Foi o que deixou evidente ontem o Banco Central. Nos últimos três meses, as concessões de crédito para a compra de eletrodomésticos e eletrônicos recuaram 5,7%. Nos financiamentos de veículos, a queda chegou a 18,2%. Já os empréstimos pessoais e o cheque especial encolheram 9,9% e 4,6%, respectivamente. "Tudo indica que está havendo uma acomodação na tomada de dívidas pelas famílias", disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.
Até mesmo o crédito consignado, com desconto em folha de pagamento, desacelerou. O motivo foi o mesmo: os maiores demandadores dessa linha de crédito, os servidores públicos e os aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), quase esgotaram o limite máximo de 30% de comprometimento dos salários com mensalidades. Em junho, o saldo acumulado desses débitos avançou apenas 1,5%, refletindo basicamente a incorporação de juros. Em contrapartida, o consignado destinado aos trabalhadores da iniciativa privada deu um salto bem maior: 4,6% no mês e 14,1% no trimestre. Mas há uma razão para isso: a base de comparação é muito baixa.
"Só agora os empregados da iniciativa privada estão tendo acesso a esse tipo de crédito", afirmou Altamir. Ele explicou que o acesso ao crédito com desconto em folha sempre foi mais fácil para os servidores e os aposentados devido à estabilidade nos rendimentos. Os demais trabalhadores necessitam de acordo das empresas com os bancos para acessar os financiamentos.
Cheque especial
Na avaliação de Altamir, é grande a preocupação dos consumidores em não ficar inadimplentes. Por isso, a tendência, daqui por diante, é de o volume total de crédito às pessoas físicas crescer muito pouco, até porque muitos anteciparam compras nos primeiros meses do ano, usufruindo dos benefícios fiscais dados pelo governo. Na outra ponta, porém, haverá um pouco mais de interesse das empresas em financiamentos. Foi, inclusive, esse movimento o motivo principal de o total de empréstimos na economia ter passado, de maio para junho, de R$ 1,49 trilhão para R$ 1,53 trilhão.
"Está havendo uma mudança de comportamento. Enquanto o volume de crédito às empresas cresce a uma taxa expressiva, para as famílias, os indicadores são de estabilidade", reconheceu o economista do BC. Ele chamou a atenção para outro dado relevante: mais conscientes, os brasileiros estão cortando, principalmente, as operações mais caras, como o cheque especial, cujas taxas saltaram 4,8 pontos percentuais de maio para junho, cravando inacreditáveis 165,1% ao ano.
Essa significativa elevação dos juros do cheque especial é explicada por Altamir pelo aumento do risco dos bancos. "Só as famílias que não conseguiram migrar para um crédito mais barato permanecem no limite do especial, o que resulta em um risco maior para as instituições financeiras", observou. O técnico destacou ainda que a redução no crescimento do crédito às pessoas físicas também deve ser creditada ao aperto na política monetária promovido pelo BC. Ao elevar a taxa básica de juros (Selic) desde abril, o BC está tentando acomodar a expansão da economia e evitar a disparada da inflação.
Descontos
Apesar do cenário traçado pelo BC, as microempresárias Vanessa Caroline Brito, 31 anos, e Valéria Brito, 63, continuam dispostas a usufruir da efervescência da oferta de crédito no Brasil - mesmo que com moderação. No primeiro semestre, compraram um carro financiado e, agora, buscam um fogão novo. "Se não conseguirmos um bom desconto, compraremos parcelado", disse Vanessa. A meta, porém, é quitar todas as prestações até o fim deste ano. "Queremos chegar a dezembro sem nenhuma dívida. Todo mundo sabe que, em algum momento, é preciso pôr o pé no freio para conseguir continuar comprando", complementou Valéria.
O casal de servidores públicos Karin Dickel, 38, e Bruna Castelo Branco, 30, está mais comedido. Eles decidiram morar juntos recentemente e estão mobiliando a casa. "Os gastos são enormes", afirmou Dickel. Para não extrapolar a capacidade de pagamento, decidiram fazer uma previsão de gastos e ir programando o vencimento das contas. "Fazemos uma compra em um mês e programamos outra para mais à frente. Também gastamos muita sola de sapato. Quanto mais andar, mais se consegue descontos", ensinou Bruna.
"Todo mundo sabe que, em algum momento, é preciso dar uma parada nas compras"
Valéria Brito, microempresária
"Se não conseguirmos um bom desconto, compraremos (um fogão) parcelado"
Vanessa Brito, microempresária
Emprego faz calote cair
Independentemente do comprometimento mais dos salários com dívidas, a quantidade de calotes entre os brasileiros está menor. Isso está sendo possível graças ao aquecimento do mercado de trabalho e à expansão da renda. Dados do Banco Central apontam que, mesmo com algumas taxas de juros dos empréstimos pessoais em alta, o volume dos crédito em atrasos está nos menores níveis da série histórica - iniciada em 1994.
No crédito total, que envolve setor produtivo e consumidores, o percentual de calote é de 3,7%. Somente para as pessoas físicas, o índice de atraso nas contas é de 6,6%, o menor percentual desde outubro de 2005. Além do emprego e da renda, essa resultado está sendo favorecido pela ampliação do prazo de financiamentos, permitindo que as prestações se encaixem no orçamento. "O aumento do prazo reduz o valor das parcelas e, dessa forma, elas cabem no bolso das famílias", explicou o chefe do Departamento Econômico do BC (Depec), Altamir Lopes.
O prazo médio dos empréstimos para pessoas físicas aumentou nove dias de de maio para junho, alcançando 527 dias corridos. Para as empresas, o prazo médio aumentou 19 dias, passando de 363 em maio para 382 dias em junho. Na média (soma das pessoas físicas e jurídicas), o prazo total de 450 dias é o mais elevado da série histórica iniciada do BC em 2002. (VC e VM)
Juros estão no menor nível em 16 anos
A taxa média de juros cobradas dos consumidores cedeu para 40,4% ao ano em junho, ante os 41,5% de maio, o menor nível desde 1994, quando o Banco Central passou a fazer tal levantamento. Contribuíram para esse movimento, o crédito pessoal, em que que os encargos recuaram de 43% para 42% ao ano, e a aquisição de veículos, em que as taxas passaram de 24,8% para 23,6% anuais. Na contramão do mercado, subiram os juros do cheque especial, de 160,3% para 165,1% ao ano, e do crédito consignado, de 26,9% para 27,1% anuais. Para o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, também favoreceu a redução do custo médio do crédito a migração nos financiamentos, dos mais caros para os mais baratos.
O Estado de S.Paulo - 28/07/2010
Pacote de inovação tem medidas já anunciadas
Programa de investimentos tem recursos que já estão no orçamento do BNDES desde o ano passado e medidas velhas divulgadas nos primeiros meses do ano
Leonencio Nossa, Leonardo Goy / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
Disposto a reforçar o discurso sobre inovação tecnológica da candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff, o Palácio do Planalto reabriu a temporada de planos com medidas velhas, anunciadas à exaustão nos primeiros meses do ano. Coube ao ministro de Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende, chamar a imprensa para dizer que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai investir R$ 1,6 bilhão em inovação.
No decorrer da entrevista, no Centro Cultural Banco do Brasil, sede provisória da Presidência, o ministro reconheceu que pelo menos metade desse valor já estava incluído desde o ano passado no orçamento do BNDES.
O governo também divulgou que abriria licitação de R$ 500 milhões para projetos nas áreas de energia, nanotecnologia, saúde, defesa e desenvolvimento social. O dinheiro já tinha sido anunciado e faz parte de um orçamento maior, de R$ 3,6 bilhões do Finep, financiadora de estudos e projetos vinculada ao Ministério de Ciência e Tecnologia. O ministro Sérgio Resende negou que o plano tenha caráter eleitoreiro. "Não tem nada a ver com o momento eleitoral."
Depois, o próprio ministro se confundiu: "A decisão de colocar R$ 500 milhões num edital é recente, mas não é nova".
Pouco antes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma medida provisória com desonerações em setores como importação e exportação, que também já haviam sido anunciadas. A lista inclui a eliminação até maio de 2011 de um redutor do Imposto de Importação cobrado de autopeças e o aumento de R$ 60mil para R$ 75 mil do limite para compra de casas sem pagamento de impostos, no programa Minha Casa, Minha Vida.
Na entrevista, o governo divulgou uma cartilha com medidas na área de ciência e tecnologia que será distribuída na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Natal, nesta semana. Dilma Rousseff e a candidata do PV à Presidência, Marina Silva, já marcaram presença no evento.
Pouco de novo. De medida nova, mesmo, restou a desoneração do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) dos recursos aportados pelo próprio governo em empresas a título de subvenção econômica. Esse dinheiro tem o objetivo de financiar a pesquisa tecnológica nas empresas.
Apesar do caráter não reembolsável do dinheiro, havia uma distorção. Segundo o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, em alguns casos, nem toda a subvenção era gasta no mesmo período fiscal e, quando avançava pelo ano seguinte, o imposto acabava incidindo sobre os mesmos recursos. "Assim o governo não pega de volta um dinheiro que ele próprio colocou como subvenção", explicou Barbosa.
Correio Braziliense - 28/07/2010
Sufoco nos negócios
Sanções reforçadas impostas pela União Europeia dificultam ainda mais as transações comerciais com o regime iraniano e podem afetar terceiros países. Empresários brasileiros que acompanharam o presidente Lula a Teerã admitem que ficou "ainda mais difícil" exportar sem a opção de obter garantia de crédito com bancos do velho continente
Isabel Fleck
As sanções adicionais aprovadas pela União Europeia entraram em vigor ontem com o objetivo de pressionar o Irã a congelar seu programa nuclear(1) atingindo a área mais sensível para qualquer governo: a economia. O embargo mira a indústria do petróleo, que é responsável por 80% das exportações do país, mas também proíbe transações de instituições financeiras europeias com o governo, bancos e o Banco Central iranianos. Com essas dimensões, o cerco iniciado pelos Estados Unidos e reforçado pelo bloco europeu tende a afetar não só apenas a República Islâmica, mas todos aqueles que já mantenham ou queiram ampliar o intercâmbio comercial com o país, como o Brasil.
Nos últimos 10 anos, as exportações brasileiras para o Irã mais do que dobraram, e só nos primeiros seis meses de 2010 a balança comercial já registra um movimento 70% maior que o acumulado no mesmo período do ano passado. O interesse em aumentar mais essa interação foi demonstrado nos últimos meses, quando o presidente Mahmud Ahmadinejad veio ao Brasil com cerca de 300 empresários, em novembro, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, levou uma comitiva de quase 90 homens de negócios a Teerã, semanas antes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Entretanto, apesar de o chanceler Celso Amorim ter destacado que o Brasil não tem obrigação de obedecer as sanções unilaterais adotadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia, as novas restrições impostas pela UE podem atrapalhar esses esforços de aproximação. Isso porque a maioria dos empresários brasileiros que poderiam investir em exportações para o Irã ficará com ainda menos possibilidades de financiamento. "A maior parte das nossas operações tem uma triangulação (utilização de instituições financeiras de um terceiro país para poder fechar negócio) via Estados Unidos. Com o Irã, já sabíamos que isso não seria possível", explica Martin Hepp, gerente de exportação de uma empresa de médio porte de maquinário agrícola, que acompanhou Miguel Jorge na viagem a Teerã.
Segundo Hepp, sua empresa, assim como várias outras que integravam a comitiva, foi para o Irã "tentando buscar uma arquitetura financeira para escapar do embargo" americano. "Eu vi mercado, vi pessoas querendo comprar, e a Europa era uma possibilidade para fazer essa triangulação. Agora, com essas novas sanções, fica muito complicado", lamenta. O empresário Rogério Cunha, que também esteve na comitiva, tem esperança de que as possibilidades anunciadas pelo governo durante a viagem amenizem o impacto da "retirada" de bancos europeus de futuras negociações. "Na época, foi dito a nós que as intermediações seriam viabilizadas pelo governo brasileiro, por meio do Banco do Brasil - então não teriam impacto as sanções aos bancos europeus ou americanos", lembra Cunha, diretor de exportações de uma empresa de motores elétricos. Ele, contudo, assume que, sem o apoio oficial, "fica muito mais difícil" fechar negócios.
Crédito
Em maio, quando esteve em Teerã, Lula prometeu disponibilizar, nos próximos cinco anos, uma linha de crédito de 1 bilhão de euros para a exportação de alimentos para o Irã. Em 2009, o governo brasileiro abriu negociações com o Export Development Bank of Iran (EDBI) para facilitar a obtenção de crédito para investimentos, contornando as sanções já aplicadas pelos EUA. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), assume que o fato de a nova decisão da UE anular possibilidades com os bancos europeus pode afetar o comércio com os iranianos. "Mas afeta menos porque exportamos mais alimentos, e não petróleo", observa um alto funcionário do MDIC, destacando o fato de os alimentos não estarem entre os produtos sujeitos a embargo direto. Hoje, 44% dos produtos exportados para o Irã é carne bovina, seguido de açúcar bruto, milho e óleo de soja.
1 - Teerã "convoca" Brasil e Turquia
O Irã não abre mão da participação do Brasil e da Turquia nas negociações com as grandes potências sobre seu programa nuclear, embora a inclusão dos dois países enfrente resistências por parte do grupo "cinco mais um" - composto pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, Reino Unido, França e China) mais a Alemanha. O presidente Mahmud Ahmadinejad reafirmou a disposição de retomar em setembro as conversações, a despeito da aprovação de uma nova rodada de sanções pelo conselho, por iniciativa de Washington. Mas insistiu que só voltará à mesa "sob condições", entre elas a inclusão dos governos brasileiro e turco, que em maio mediaram um acordo para viabilizar a troca de urânio enriquecido - um dos pontos do impasse. A fórmula foi rejeitada como "insuficiente" pelas potências, que exigem de Teerã a suspensão do enriquecimento, conforme resolução anterior do conselho.
Eu vi mercado, vi pessoas querendo comprar. Agora, com essas novas sanções, fica muito complicado"
Martin Hepp, empresário brasileiro
Na época (da viagem), foi dito a nós que as intermediações seriam viabilizadas pelo governo brasileiro, por meio do Banco do Brasil - então não teriam impacto as sanções"
Rogério Cunha, empresário brasileiro
Valor Econômico - 28/07/2010
Bancos precisam de teste mais robusto do que o atual
Os testes de estresse deveriam ser submetidos a testes de estresse. Poderiam os bancos que passaram na versão do teste imposto pelos órgãos reguladores europeus ser capazes de se financiar adequadamente se as garantias implícitas ou explícitas dos seus passivos não formados por depósitos fossem retiradas? Esse novo teste deveria ser aplicado a cada banco individualmente, e para o grupo de bancos sistemicamente importantes como um todo. O resultado indicaria até onde os bancos europeus avançaram na sua capacidade de sobreviver sem subsídio público. Não muito longe, suspeito.
O conceito de teste de estresse deriva dos procedimentos usados para garantir a robustez de estruturas de engenharia complexas. Há três estágios. Começamos testando cada componente em condições consideravelmente mais exigentes do que é razoável encontrar. Em seguida, revemos o projeto do sistema para assegurar que, mesmo se vários elementos falharem simultaneamente, o fato não ameaçará a integridade da estrutura toda. Terceiro, e mais importante, testamos o sistema total para resultados muito além do âmbito da experiência. Não perguntamos "será que sobreviverá a um vendaval pior que qualquer outro sofrido nesse local no século passado?"
Há muita coisa que o sistema financeiro poderia aprender com isso, mas não há nenhuma evidência de que tenha aprendido. O cenário adverso dos testes de estresse bancários, longe de estar fora do escopo da experiência ou da expectativa, não dista muito da média. O calote soberano não é considerado, já que os políticos decretaram que ele não acontecerá.
E isso ilustra um problema. Uma das muitas conseqüências adversas das exigências de capital da Basileia foi que os bancos que detinham mais do que o mínimo regulatório foram pressionados a justificar seu capital excedente. É fácil imaginar o conselho de administração de um banco se sentir reconfortado ao ser informado de que sua instituição está garantida contra o cenário mais adverso postulado por seu regulador externo. Portanto, o gestor de risco, cujo cargo está em perigo hoje, não é a pessoa que deixa de insistir na aplicação de avaliações mais pessimistas do que o teste de estresse: é a pessoa que insiste nisso.
Para piorar, os testes de estresse são autorreferenciais. Seu propósito é demonstrar, não que o banco seja sólido, mas que satisfaz as exigências de capital regulatório. Mas uma das lições de 2008 foi que a adequação de capital foi quase irrelevante numa crise. A maioria das instituições cumpriu as suas obrigações de capital regulatório no dia em que quebraram. Filas se formaram do lado de fora das agências do Northern Rock poucas semanas depois de o banco ter anunciado (mas antes de ter implantado) planos para devolver seu capital "excedente" aos acionistas.
Os correntistas não estavam satisfeitos com a garantia de que o banco obedecia à norma, e eles estavam certos. Quando a ponte Tacoma Narrows veio abaixo em 1940, especialistas disseram que ela havia atendido as mais exigentes normas de engenharia apesar de infelizmente ter desabado.
Os engenheiros aprenderam aquela lição, mas os reguladores financeiros não. A adequação do capital foi projetada para um mundo em que o emprestador de última instância podia transformar os ativos bons, mas ilíquidos, de um banco solvente em dinheiro vivo. Mas quando a incerteza sobre o valor de ativos e passivos complexos se torna tão grande que o próprio banco não pode determinar com segurança a sua posição verdadeira, capital e dinheiro vivo são coisas muito diferentes.
Valor Econômico - 28/07/2010
Fundos estatizados deram poder sobre empresas
A estatização das administradoras dos fundos de pensão, no fim de 2008, permitiu ao governo argentino entrar na gestão de algumas das principais empresas do país, incluindo bancos, grandes indústrias e concessionárias de serviços públicos privatizados na década anterior.
Em um ano de forte recuperação econômica, o governo espera receber quase 600 milhões de pesos em dividendos, por causa das participações acionárias nessas empresas. São ações compradas pelos fundos para diversificar os investimentos de seus contribuintes e que passaram às mãos do Estado com a reestatização do regime previdenciário.
Nem companhias brasileiras escaparam. O governo detém participação de 6,74% no capital social da Petrobras Argentina, de 14,66% do Banco Patagônia (comprado neste ano pelo Banco do Brasil) e de 8,97% no frigorífico Quickfood (controlado pela Marfrig). Também tem participação residual, de 0,012%, na Alpargatas (hoje da Camargo Corrêa). Mas esse pequeno percentual é suficiente para impedir os planos da empresa brasileira de fechar o capital da Alpargatas, como ela desejava.
"Em alguns casos, já houve nítidos conflitos de interesses", diz a economista Soledad Pérez Duhalde, da Abeceb. Ela lembra a resistência da Techint, um dos principais grupos de capital nacional, em incorporar um conselheiro indicado pelo governo na administração da fabricante de aço Siderar. A praxe nas empresas, entretanto, é tratar esses conflitos nos bastidores e evitar críticas ao governo.
Uma das raras exceções foi a Telecom Italia, controladora da Telecom Argentina, dona de metade do mercado de telefonia fixa no país e de 35% das operações de celulares. Na estrutura societária da operadora, os italianos detêm o controle, mas a Anses herdou 25% das ações da Telecom Argentina - última companhia da estrutura.
"O papel que terá o governo, por meio da Anses, em realizar investimentos em companhias que participam do mercado de capitais é pouco claro, devido à ausência de políticas claras estabelecidas (a respeito)", afirma-se no balanço. A empresa conseguiu resistir, até agora, às indicações da Anses para compor seu conselho. "O critério de seleção para a escolha das pessoas que se nomeiam nos conselhos de administração ainda é desconhecido", acrescentou a operadora.
Há duas semanas, a cúpula da Anses informou, em audiência pública no Senado, que não pretende vender, pelo menos por enquanto, suas participações acionárias nessas companhias.
Valor Econômico - 28/07/2010
MP amplia isenção para o "Minha Casa" e concede desonerações para a Copa
Paulo de Tarso Lyra, de Brasília
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou ontem medida provisória que concede desoneração de tributos para projetos de inovação tecnológica, para o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida e produtos para exportação. O governo também fixou na MP o cronograma de quatro etapas, até maio de 2011, para o fim do desconto dos impostos de importação de autopeças, que significará aumento do custo da produção interna de veículos. A medida beneficiará os fornecedores locais de autopeças que estavam perdendo espaço para empresas estrangeiras.
A MP desonera do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido as subvenções econômicas concedidas pelo governo para as empresas investirem em novas tecnologias. Ela cria o "drawback isenção", permitindo que os exportadores comprem em insumos o mesmo valor do imposto pago na exportação, amplia de R$ 60 mil para R$ 75 mil o valor máximo dos imóveis do Minha Casa, Minha Vida isentos de impostos, e desonera os materiais de construção, bens e serviços para as empresas que construírem, reformarem ou modernizarem os estádios para a Copa de 2014.
Nos próximos dias será divulgado um edital para escolha de beneficiários de financiamentos da Finep no valor de R$ 500 milhões. Serão contemplados projetos de pesquisa em tecnologia da informação e comunicação, energia renovável, nanotecnologia e biotecnologia, saúde, defesa e desenvolvimento social.
No edital estão previstos os recursos destinados às pesquisas do carro elétrico, que será híbrido (eletricidade/flex), mas a reunião específica para tratar do assunto, envolvendo o presidente Lula e diversos ministros, foi adiada para um outro dia. "Esse assunto é importante e está sendo discutido pelo governo. A implantação do carro elétrico pode ser neste ou nos próximos anos", disse o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.
Barbosa explicou que a isenção do Imposto de Renda e CSLL das subvenções concedidas para as empresas investirem em inovação evitará a tributação dos recursos no exercício fiscal seguinte ao que foram concedidos. Hoje, quando uma empresa consegue uma subvenção econômica para um exercício fiscal e não a utiliza integralmente no mesmo ano, ela passa a ser considerado lucro no exercício seguinte e pagará imposto.
O governo criou também o "drawback suspensão", como um complemento ao "drawback isenção". Quando um empresário importa um insumo para fabricar um produto destinado à exportação, hoje ele tem isenção do imposto de importação. Pela nova medida, ele poderá ter, como crédito para compra de novos insumos, o mesmo valor do imposto pago quando vender aquele produto para o exterior. "No caso dos navios e plataformas, essa reposição era mais lenta. Para automóveis, celulares e computadores, o processo é mais rápido", explicou Barbosa.
O governo também eliminará o redutor de 40% no imposto de importação de autopeças de forma gradual até maio de 2011. O cronograma prevê redução para 30% em 1º de agosto e 20% em 1º de abril. Essa mudança permitirá um acréscimo de R$ 132 milhões nas receitas do governo.
O governo antecipou, também, outras duas ações tributárias previstas anteriormente. Aumentou de R$ 60 mil para R$ 75 mil o valor máximo dos imóveis do Minha Casa, Minha Vida sujeitos à desoneração de PIS/Cofins, CSLL e Imposto de Renda. As alíquotas desses impostos cairá de 6% para 1%. O aumento do teto do imóvel seria incluído apenas no Programa Minha Casa, Minha Vida 2, que ainda não foi elaborado. Com a MP, passa a valer para os contratos já em vigor.
Outra medida foi a inclusão na MP da desoneração de materiais, bens e serviços para as empresas construírem, modernizarem e reformarem estádios da Copa 2014, o que representa uma renúncia fiscal de R$ 350 milhões entre 2010 e 2014 (R$ 35 milhões apenas neste ano). Essa desoneração (PIS/Cofins, IPI e II) estava previsto em projeto de lei. Como os Estados aguardavam essa medida para desonerar do ICMS os mesmos produtos, o governo incluiu a iniciativa na medida provisória.