Diretoria de Comunicação e Desenvolvimento - VICOM - (23/07/2010)
ECONOMIA
OPINIÃO
SERVIÇO
O Estado de S.Paulo - 23/07/2010
Estoques da indústria refletem desaceleração e já voltam a crescer
Acúmulo de produtos foi considerado pelo Copom na decisão sobre alta de juros, mas outros indicadores apontam na direção contrária
Cleide Silva, Márcia De Chiara, Renée Pereira - O Estado de S.Paulo
A economia brasileira exibe hoje sinais contraditórios. A indústria de eletrodomésticos e automóveis começa a acumular estoques. Nas montadoras, o volume de carros nos pátios é o maior dos últimos anos e já supera até o de dezembro de 2008, o auge da crise. Em outros setores, no entanto, o que se vê é exatamente o oposto: em alguns casos existe escassez de produtos e de mão de obra.
Sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que, em junho, pela primeira vez desde o início de 2009, as indústrias de veículos e de eletrodomésticos, setores que foram beneficiados pelo corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), voltaram a acumular estoques indesejáveis. No mês passado, segundo a pesquisa, 4% das empresas de materiais de transporte estavam nessa condição e 2% das indústrias de linha branca. Essas e outras evidências deram respaldo para que o Banco Central (BC) reduzisse o ritmo de alta da taxa básica de juros (Selic) por considerar que a atividade econômica está em desaceleração.
Já na construção civil, por exemplo, a situação é inversa. Empresas importam cimento para atender ao ritmo acelerado das edificações. As companhias de transporte rodoviário, por sua vez, têm dificuldade de pôr toda frota para rodar por falta de pneus. Também voltou a ter fila de espera para compra de caminhões zero quilômetro. Nos portos, o aumento das importações e o embarque maior de açúcar provoca congestionamento.
Dados divulgados ontem sobre o emprego e renda confirmam que existe combustível para sustentação da demanda nos próximos meses. A taxa de desemprego de 7% alcançada em junho foi a menor para o mês desde o início da série histórica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), iniciada em 2002. A massa de rendimento real dos trabalhadores cresceu em junho 0,5% em relação a maio e 6,7%, na comparação com o mesmo mês de 2009.
"Houve um freio de acomodação na economia brasileira no segundo trimestre", afirma o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Essa redução de ritmo aparece no Índice de Atividade Econômica, calculado pelo BC, que registrou estabilidade entre abril e maio. Na análise de Vale, essa acomodação da atividade era previsível por causa da retirada dos incentivos fiscais para compra de carros e eletrodomésticos, o menor número de dias trabalhados em junho em razão dos jogos da Copa do Mundo e o fato de o primeiro trimestre ter sido muito intenso.
Vale acredita que a economia voltará a se acelerar no terceiro trimestre, porém num ritmo inferior ao do primeiro trimestre. Vale projeta crescimento de 7% para o Produto Interno Bruto (PIB)no terceiro trimestre em relação a igual período de 2009 e alta de 1% na comparação com o segundo trimestre. Por isso, ele considera precipitada a decisão do BC de reduzir o ritmo do aperto monetário para 0,50 ponto. "A decisão não foi boa."
Juan Jensen, sócio da Tendências Consultoria Integrada, faz uma análise semelhante à de Vale. "A desaceleração é pontual." Um dos fatores que o economista considera importante para a manutenção do crescimento é o forte aumento do emprego com carteira assinada. "Isso vai permitir a entrada de novos consumidores ao mercado de crédito nos próximos meses."
Na opinião de Júlio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a desaceleração não é tão forte como se imagina. "A economia cresce em ritmo menor, mas cresce."
"A economia doméstica continua bombando", afirma o economista-chefe da Sul América, Newton Rosa, que alerta para os riscos inflacionários para o segundo semestre. Entre julho e dezembro, ocorre o período de entressafra de vários produtos agrícolas e a contribuição agora favorável dos alimentos para a inflação poderá ser revertida.
Consenso
JUAN JENSEN SÓCIO DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA
"A desaceleração (da economia) é pontual."
JÚLIO GOMES DE ALMEIDA CONSULTOR DO IEDI
"A economia cresce em ritmo menor, mas cresce."
O Estado de S.Paulo - 23/07/2010
Não é preciso subir Selic, diz Bernardo
Eduardo Rodrigues / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirmou ontem que o Comitê de Política Monetária (Copom) não precisa mais aumentar os juros, porque as pressões inflacionárias estariam sob controle. Anteontem, o colegiado decidiu um reajuste de 0,5 ponto porcentual na taxa básica de juros (Selic), para 10,75% ao ano. A decisão indicou desaceleração no ritmo de elevação de juros, após duas altas consecutivas de 0,75 pontos porcentuais.
"A grande preocupação do Copom é com a inflação, mas em junho ela ficou em zero e na primeira prévia de julho já está negativa", disse Bernardo. Segundo o ministro, a inflação "voltou ao controle".
Ao comentar o crescimento dos financiamentos imobiliários no País, Bernardo rechaçou a possibilidade de formação de uma bolha, semelhante à que ocorreu nos Estados Unidos no início da crise financeira internacional. Somente no primeiro semestre deste ano, a carteira de crédito habitacional da Caixa Econômica Federal registrou crescimento de 95%.
"Os analistas que falam em bolha imobiliária estão falando bobagem. A carteira de crédito imobiliário no Brasil é de menos de 3% do PIB, ao contrário dos Estados Unidos, onde chega a 60%", afirmou. "Temos espaço para crescer até 13% do PUB, sem riscos", acrescentou.
Sobre o crescimento da economia, Paulo Bernardo disse que a expansão pode chegar a 7% em 2010, apesar da previsão de alta do PIB ter sido corrigida para 6,5% no relatório bimestral de avaliação de receitas e despesas da União divulgado na última terça-feira. Apesar da cautela da previsão oficial do governo, o Banco Central, por exemplo, estima um crescimento de 7,3%.
Greve. O ministro criticou a greve dos peritos do INSS, que já dura 30 dias. Para Paulo Bernardo, o movimento que reivindica aumento de salário e melhores condições de trabalho não tem justificativa. Ele lamentou a decisão do STJ que proibiu o corte do ponto dos funcionários.
"Acho que é uma greve para tirar férias. Estão sem trabalhar e ganhando salário, alguns até trabalhando em outros locais enquanto isso. Acho um absurdo completo", disse. De acordo com Bernardo, o governo não irá ceder. "Não podemos fazer negociação, estamos de mãos atadas", completou.
Correio Braziliense - 23/07/2010
Você decide: receber pensão ou aposentadoria
Ministro da Previdência, Carlos Gabas, defende o fim do pagamento acumulado de benefícios. Modelo, segundo ele, causa "distorções" e pode ser alterado sem mudança na Constituição. INSS registra deficit de R$ 2,77 bilhões em junho, valor 7,4% superior ao mês de maio
Fim de benefícios duplos
Ministério quer proibir o acúmulo de aposentadoria e pensão, ressuscitando iniciativa fracassada na administração FHC
Vânia Cristino
A aposentadoria concedida pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) não poderá mais ser acumulada com pensões. Se depender do ministro da Previdência Social, Carlos Eduardo Gabas, essa será uma das propostas que estarão sobre a mesa para mudar as regras de concessão dos benefícios previdenciários de forma a garantir a sobrevivência do sistema ao longo do tempo. "É evidente que existem distorções", admitiu o ministro ao anunciar ontem o resultado do INSS no acumulado do semestre. Na visão de Gabas, o país passa por uma conjuntura adequada para discutir o rombo nas contas, pois o emprego com carteira assinada bate recordes sucessivos e a arrecadação cresce, acompanhando o atual ciclo de desenvolvimento econômico.
"Este é o momento de discutir sem paixão a alteração de regras que, muitas vezes, pode ser feita na legislação infraconstitucional, sem precisar mexer na lei máxima do país", observou. Segundo o ministro, a acumulação de benefícios contraria a boa técnica previdenciária, não sendo permitida na maioria dos países. Caso se concretize, essa não será a primeira investida do governo contra a superposição. A medida já foi tentada no passado recente. Durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso, o ministério tentou impedir o pagamento simultâneo, dando a opção aos segurados de escolherem o de maior valor. A decisão, tomada de forma administrativa, foi derrubada na Justiça e a iniciativa foi revogada.
Pelos dados do INSS, dos 23,1 milhões de benefícios pagos mensalmente, as aposentadorias por idade, invalidez e tempo de contribuição somam 15,332 milhões. A taxa de crescimento dos pagamentos previdenciários em 12 meses é de 3,2% - as aposentadorias aumentaram 3,8%. Atualmente, a pensão por morte é paga a 6,539 milhões de pessoas. O ritmo de expansão dessa rubrica é de 2,8%. O INSS não informou qual é o percentual de acumulação nem quanto essa "distorção" representa nas suas despesas mensais, que já ultrapassam R$ 19 bilhões.
A acumulação de benefícios não é o único ponto que Gabas pretende atacar. Outro diz respeito à concessão de pensões. "É justo que alguém com 23 anos, bem posicionado no mercado de trabalho, ganhe uma pensão por toda a vida ao se casar com uma pessoa bem mais velha que pode até morrer no dia seguinte?", perguntou o ministro. Essa é uma situação extrema, mas que, segundo ele, pode ocorrer. O ministro também defendeu a aproximação de regras entre o regime geral e o dos servidores públicos. Segundo ele, não é verdade que os servidores pagaram o tempo todo 11% sobre o salário integral para ter direito à aposentadoria pelo último vencimento, como argumentam representantes do funcionalismo. "Antes do Regime Jurídico Único, eles eram filiados do INSS e, portanto, pagavam 11% até o teto do salário de benefício e não pelo salário integral", esclareceu.
Para evitar que esse descompasso continue - servidores recebendo aposentadorias equivalentes ao último salário e trabalhadores da iniciativa privada limitados ao teto, hoje de R$ 3.416,54 -, seria preciso aprovar a proposta enviada ao Congresso para criar o fundo de pensão do funcionalismo. Com ele, o governo só garantirá a aposentadoria para novos servidores até o teto do INSS. Quem quiser ganhar mais terá que contribuir para o fundo.
Este é o momento de discutir sem paixão a alteração de regras que, muitas vezes, pode ser feita na legislação infraconstitucional, sem precisar mexer na lei máxima do país"
Carlos Gabas, ministro da Previdência
Deficit aumenta 7,4%
A Previdência Social registrou em junho deficit de R$ 2,778 bilhões, 7,4% a mais do que o saldo negativo verificado em maio, que foi de R$ 2,586 bilhões. Nos primeiros seis meses do ano, as contas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) estão no vermelho em R$ 22,832 bilhões. O resultado do semestre está pouco acima do registrado no mesmo período de 2009, que foi de R$ 22,572 bilhões. Os dados foram divulgados ontem.
Segundo o ministro da Previdência Social, Carlos Eduardo Gabas, os números acumulados no ano ainda não contemplam a diferença a ser incorporada aos benefícios de valor superior ao salário mínimo, que começa a ser paga em agosto, tendo julho como referência. O governo tinha concedido às aposentadorias e às pensões mais altas reajuste de 6,14%. O Congresso inflou o reajuste para 7,72%, índice sancionado pelo presidente Lula. Só a disparidade custará R$ 1,6 bilhão este ano.
Por conta desse reajuste maior, o ministério reviu a projeção de deficit para o ano, que estava em R$ 45 bilhões, para R$ 47 bilhões. Durante a divulgação dos dados, Gabas demonstrou preocupação com o nível da recuperação de crédito. Segundo ele, a Previdência tem mais de R$ 400 bilhões para receber e o índice de recuperação mensal está na ordem de R$ 770 milhões, considerado insuficiente.
"O nível está até mais baixo que o do ano passado porque, para participar do novo parcelamento, que é mais favorável, é preciso fazer a consolidação do débito. Enquanto isso, as empresas devedoras pagam apenas R$ 100,00 por mês", explicou. Na estimativa oficial, a consolidação deve ser concluída até o fim do ano, com as empresas voltando a recolher a parcela correta em 2011.
O ministro também admitiu que uma parte considerável da dívida ativa de R$ 400 bilhões não será recebida. "Esse volume se refere ao estoque. Nele, estão empresas que não existem mais ou que não têm como pagar a dívida", reconheceu. Para evitar o acúmulo do débito durante anos, ele disse que está em estudo no Ministério da Fazenda uma possível mudança da legislação para garantir a celeridade na cobrança. As atividades de arrecadar e ir atrás dos devedores saíram das atribuições da Previdência Social desde a criação da Super-Receita. (VC)
Recorde no FGTS
O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) arrecadou um valor recorde no semestre passado, com uma entrada líquida de recursos de R$ 5,862 bilhões. O volume inédito para os seis primeiros meses do ano representou um crescimento de 158,4% na comparação com igual período de 2009, segundo a Caixa Econômica Federal. O desempenho é resultado da elevação de 9,88% nas receitas brutas, que somaram R$ 29,779 bilhões, e da diminuição de 3,69% nos saques (R$ 23,918 bilhões). A quantidade sem precedentes de trabalhadores com carteira assinada no país, resultado da expansão econômica, elevou o número de contas do fundo para 32,470 milhões. O dinheiro recolhido pelas empresas é usado no financiamento da casa própria e em obras de infraestrutura.
A maior ação social
Gabriel Caprioli
Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, apesar do alarde em torno do Bolsa Família, a Previdência é o maior programa social do governo federal e o que mais tem contribuído para a redução da pobreza. Sem o pagamento dos benefícios previdenciários e os repasses da União nas outras ações sociais, 40,5 milhões de pessoas estariam vivendo com menos de um quarto de salário mínimo, renda que as incluiria na faixa de extrema pobreza. Hoje, essa parcela da população chega a 18,7 milhões de brasileiros.
De acordo com comunicado divulgado ontem pelo Ipea, que reúne dados de 1978 a 2008, os repasses do governo representam cerca de 20% do rendimento das famílias brasileiras e atingem quase 50% da população. O estudo engloba as transferências feitas por meio da Previdência e do Bolsa Família.
Segundo o diretor de Estudos e Políticas Sociais do instituto, Jorge Abrahão de Castro, o incremento da renda via poder público é influenciado principalmente pela Previdência Social e atinge várias classes de renda. "Há uma mudança em todos os perfis (de orçamento). A rede de proteção não afeta apenas os mais pobres, mas todo o conjunto da economia", afirmou.
Orçamento
O peso da Previdência na complementação da renda fica mais explícito quando observadas as diferentes unidades da Federação. Nos estados do Nordeste, onde a renda é menor, a participação dos benefícios no orçamento familiar é maior. O Piauí é o estado com o maior percentual (31,2%), seguido pela Paraíba (27,5%) e por Pernambuco (25,7%).
Estados com uma fatia maior de idosos na população também ocupam lugares de destaque na lista. No Rio de Janeiro, onde 10,2% dos moradores têm idade acima de 65 anos, 25,5% do rendimento das famílias são provenientes das transferências públicas. Na avaliação de Castro, o custo da manutenção dessa rede de proteção social é alto, mas segue a tendência de países desenvolvidos.
"Estamos seguindo o que há de melhor e a sociedade está de parabéns em ter construído uma estrutura desse porte", considerou. Nos últimos meses, o Ipea tem divulgado estudos na área social, levantando a suspeita da Oposição de que o objetivo é ligar os números ao governo e a sua candidata à Presidência, Dilma Rousseff.
O Estado de S.Paulo - 23/07/2010
Do enigma de Mantega ao seguro estatal
Rogério L. F.Werneck - O Estado de S.Paulo[
No início de 2006 havia no País uma visão quase consensual, da qual compartilhava a própria equipe econômica do governo. Tendo em conta a dura realidade do quadro fiscal, o governo não poderia arcar com o esforço de investimento em infraestrutura que o País tinha pela frente. E seria fundamental, portanto, assegurar práticas regulatórias bem concebidas que pudessem atrair capitais privados para a expansão da infraestrutura. Pouco mais de quatro anos se passaram. O quadro fiscal continua o mesmo. Mas o governo agora parece ter recursos para bancar quase tudo. Não há projeto de investimento, por mais dispendioso que seja, que não possa ser financiado com dinheiro público. Qual foi a mágica?
Tudo começou quando Antonio Palocci foi substituído por Guido Mantega no Ministério da Fazenda. Numa entrevista ao Financial Times, o recém-empossado ministro deixou entrever o que estaria por vir, com uma explicação inesquecível que, por encerrar óbvia contradição em termos, passou a ser conhecida como o enigma de Mantega: como o governo não contava com recursos para investir, a solução era recorrer ao investimento privado financiado com recursos do governo.
Desse entalo lógico, Mantega logo se livraria, ao ser convencido por Luciano Coutinho, presidente do BNDES, de que o que estava errado era a premissa de que o governo não tinha recursos. Nada impedia que o Tesouro emitisse mais dívida pública. E emprestasse os recursos assim obtidos ao BNDES, a juros subsidiados. E, se Mantega quisesse evitar que esse aumento de endividamento aparecesse na dívida líquida do governo, poderia recorrer ao artifício contábil de lançar os empréstimos ao BNDES como ativo do Tesouro ao calcular a dívida líquida. Foi essa a mágica que permitiu que o governo possa hoje se dar ao luxo de bancar qualquer tipo de investimento. Tudo, claro, à custa de preocupante aumento do endividamento bruto da União e de vultosa e indefensável conta de subsídios em aberto. O que se teme é que esse esquema, já de proporções bastante grandes, possa ser apenas o plano piloto de uma operação em escala muito maior, a ter lugar no próximo mandato presidencial. Sem a intermediação de Mantega, direto ao caixa, sob o comando direto do próprio Luciano Coutinho.
A súbita fartura de recursos estatais vem distorcendo a formatação dos novos projetos de infraestrutura. Basta ver o que acabou ocorrendo com a composição do consórcio ganhador de Belo Monte. A Eletrobrás e suas subsidiárias responderão por 49,98% da sociedade formada. Fundos de pensão de empresas estatais - que não são públicos, mas que o governo trata como se fossem - vão deter 27,5%. A participação de investidores efetivamente privados, incluindo construtoras, ficou restrita a pouco mais de 22,5%. O BNDES deve financiar cerca de 80% da obra, diretamente ou através dos sócios. Tudo com juros pesadamente subsidiados e a prazos longuíssimos. Mas, ainda assim, dadas as deformações de Belo Monte, houve investidores privados que concluíram que os riscos do projeto eram excessivos.
É preciso entender que, não obstante todo o viés estatal, o governo não pode abrir mão da participação dos investidores privados. Porque precisa manter a fachada de "consórcio privado", sem a qual a usina teria de ser construída em estrita observância da Lei de Licitações (n.º 8.666), o que o próprio presidente da Eletrobrás declarou ser missão impossível. Para o governo, portanto, tornou-se fundamental evitar que o alto risco envolvido nos seus projetos de infraestrutura impeça a participação necessária de investidores privados.
É isso que explica a última etapa da escalada de contrassensos. Depois de tentar assegurar na marra a modicidade tarifária, com o festival de subsídios de Belo Monte, o governo constata agora que precisa partir para a "modicidade securitária". Quer criar uma seguradora estatal para bancar a preços camaradas riscos envolvidos em obras de infraestrutura, transferindo-os, em boa parte, ao contribuinte. Mais do mesmo.
ECONOMISTA, DOUTOR PELA UNIVERSIDADE HARVARD, É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIONN
O Estado de S.Paulo - 23/07/2010
INSS tem rombo de R$ 22,8 bi no semestre
Célia Froufe / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
O déficit da Previdência Social já soma R$ 22,8 bilhões no primeiro semestre de 2010, mas o rombo tende a ser ainda maior na segunda metade do ano. O ministro Carlos Eduardo Gabas prevê necessidade de financiamento próximo de R$ 47 bilhões em 2010, o que significa um saldo negativo perto de R$ 24 bilhões de julho a dezembro.
O maior impacto nas contas a partir de agora é o reajuste aos aposentados. O cálculo inicial era de 6,14%, mas o Congresso aprovou aumento de 7,72% e a diferença (R$ 800 milhões referentes ao retroativo) começará a ser paga em agosto. No total, são R$ 1,6 bilhão a mais nas despesas da Previdência. O ministro salientou que o mercado de trabalho deverá ajudar a sustentar o resultado das contas da Previdência, mas o dado de junho já mostrou uma acomodação na criação de empregos formais.
"Certamente o déficit não passará de R$ 50 bilhões", comentou. "Não vai passar nem dos R$ 47 bilhões se a economia seguir respondendo, apesar do Copom", disse, citando a decisão do Banco Central de elevar os juros anteontem para 10,75% ao ano. Apenas em junho, a Previdência registrou déficit de R$ 2,8 bilhões, resultado de arrecadação de R$ 16,6 bilhões e de pagamentos de benefícios de R$ 19,4 bilhões. Houve aumento de 7,4% em relação a maio (R$ 2,6 bilhões), mas queda de 21,6% ante junho de 2009 (R$ 3,5 bilhões). Todos os valores anteriores a junho de 2010 são corrigidos pela inflação (INPC).
Cidade e Campo. O que tem feito com que o rombo da Previdência não seja ainda maior, segundo Gabas, é a melhora generalizada da economia. De janeiro a junho, o saldo da previdência urbana está negativo em R$ 1,5 bilhão. O volume é 51% menor que o verificado na primeira metade de 2009, (déficit de R$ 3,1 bilhões). "Quando a saúde das empresas está melhor, elas pagam suas contribuições".
No meio rural a situação vem se agravando. O setor já apresenta contribuição pífia e o resultado ficou ainda pior desde abril. No primeiro semestre, a arrecadação caiu 4,6% em comparação à primeira metade de 2009, ficando em R$ 2,2 bilhões ante os R$ 2,3 bilhões do ano passado.
Servidores inativos
Depois das eleições, o governo tentará barrar no Congresso a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que aprova o fim da contribuição previdenciária dos servidores inativos.
O Globo - 23/07/2010
Perto das férias, desemprego cai a 7%
Taxa atingiu menor nível para junho desde 2002 e renda do trabalhador sobe
Fabiana Ribeiro
Às vésperas das férias de julho, muitos brasileiros desistiram de procurar emprego no país. Com menos gente buscando trabalho nas seis principais regiões metropolitanas do país, a taxa de desocupação em junho ficou em 7%, ante 7,5% em maio. Assim, o indicador atingiu seu menor nível para o mês de junho desde 2002, início da série do IBGE.
Em igual mês de 2009, a taxa fora de 8,1%.
- A redução do desemprego não se deu porque as pessoas conseguiram trabalho.
Afinal, não houve expansão na ocupação, que ficou estável com uma população de 21,9 milhões em junho. Quem deixou de buscar trabalho foi para a inatividade. Nesse mês, as férias pesaram na decisão de procurar emprego - disse Cimar Azeredo, gerente da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE, para quem a Copa não influenciou no ritmo de procura por vagas.
Segundo Azeredo, o mercado de trabalho não dá sinais de desaquecimento - o que, para muitos economistas, pode pressionar a inflação por vir com aumento de renda e mais custo para as empresas. Ele cita o nível de ocupação que está em 52,9% - o maior patamar do indicador para um mês de junho.
- No primeiro semestre, a média da taxa de desocupação ficou em 7,3%, a mais baixa para um primeiro semestre desde 2002. A do primeiro semestre de 2009 era de 8,6%. O mercado de trabalho deixa a crise, superando, inclusive, os primeiros seis meses de 2008 - disse Azeredo, acrescentando que a formalização também traz números positivos.
Empregos com carteira crescem mais que ocupados A pesquisa do IBGE mostrou também que a renda média em junho ficou em R$ 1.423 - 0,5% a mais do que em maio e 3,4% acima da de junho de 2009. A massa do rendimento médio real habitual dos ocupados ficou em R$ 31,4 bilhões, com alta de 0,5% sobre maio e 6,7% sobre junho de 2009.
- O cenário do mercado de trabalho está positivo. Não há desalento e a renda sobe, com aumento da formalidade - resumiu Carlos Henrique Corseuil, técnico do Ipea, destacando que o mês de junho veio para mudar o quadro de maio.
- Em maio, houve um excesso de confiança e as pessoas procuraram mais por emprego.
Agora, os dados mostram que os fatores preocupantes passaram.
Segundo Azeredo, a qualidade do emprego nas regiões metropolitanas vem apresentando melhora. Em junho, 46,4% da população ocupada eram empregados com carteira assinada. Em junho de 2009, representavam 44,8%.
No movimento inverso, a proporção de trabalhadores sem carteira recuou de 12,9% para 12,2% na comparação anual.
- Dos cerca de 731 mil postos de trabalho criados no primeiro semestre, cerca de 670 mil são com carteira assinada.
Os empregos com carteira crescem duas vezes mais do que a população ocupada - comentou o economista do IBGE.
Desemprego baixo e renda alta podem afetar inflação Para Felipe Wajskop França, economista do banco ABC Brasil, o desemprego se mantém em patamares bastante baixos e inferiores ao que se considera uma taxa neutra (em torno de 7,5%, o que não pressionaria a inflação) e a renda em níveis elevados (e crescentes). Segundo o analista, o quadro indica que talvez o Banco Central (BC) "possa ter se precipitado ao reduzir o passo do aperto monetário".
O Comitê de Política Monetária do BC elevou a Taxa Selic em 0,50 ponto percentual, para 10,75% ao ano, reduzindo o ritmo de aperto dos dois encontros anteriores.
O Estado de S.Paulo - 23/07/2010
Previ mira investimentos em redes de varejo no País
Setor é um dos poucos em que o maior fundo de pensão do Brasil, com patrimônio de R$ 140 bilhões, ainda não investe
Mônica Ciarelli - O Estado de S.Paulo
A Previ, maior fundo de pensão do País, com um patrimônio de aproximadamente R$ 140 bilhões, decidiu mirar as grandes empresas de varejo, setor que cresceu nos últimos anos na esteira do aumento da renda da população brasileira. Segundo o presidente da fundação, Ricardo Flores, a Previ vem mapeando o setor com intenção de comprar uma participação acionária em empresas de varejo, um dos poucos setores onde a fundação ainda não tem investimentos.
"Esse é um mercado interessante, pujante e que enxergamos boas oportunidades de ganho", afirmou. No ano passado, a entidade ganhou mais fôlego para investimento com a mudança nas regras para os fundos de pensão, que elevou de 50% para 70% o limite das aplicações em renda variável. Antes, a Previ estava desenquadrada e precisava anualmente vender participações acionárias para tentar cumprir um acordo fechado com a Secretaria de Previdência Complementar (SPC), que previa a redução da fatia em renda variável para 50% até 2014.
Alvos. Flores não quis revelar se a entidade já está em negociações com alguma rede, mas adiantou que o alvo não precisa ser uma companhia de capital aberto. Segundo o executivo, o recente aumento do poder aquisitivo da população, especialmente das classes C e D, vem ampliando a lucratividade das companhias de varejo, que dependem basicamente do comportamento do mercado interno.
O presidente da Previ destacou ainda que o crescimento do mercado foi um dos fatores que garantiu ao Brasil uma passagem mais tranquila pelo epicentro da crise financeira internacional deflagrada em setembro de 2008.
O Globo - 23/07/2010
Programas sociais são 20% da renda
Gustavo Paul
BRASÍLIA. Os programas de transferência de renda - incluindo aposentadorias, bolsa família e assistência social - representam 20% do total da renda das famílias brasileiras.
Desde a Constituição de 1988, esse percentual cresce acentuadamente, mostra levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em 1988, essas transferências representavam 8,1% da renda familiar per capita.
Em 2008, 18,7 milhões de pessoas viviam com menos de um quarto de salário mínimo e, sem as transferências, seriam 40,5 milhões, ou seja, um aumento de 21,8 milhões de pessoas na situação de pobreza extrema. Para o diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, Jorge Abrahão, os dados mostram que a política de transferência de renda está sendo eficaz: - O sistema público brasileiro de transferência de renda está interferindo na renda das famílias brasileiras. Essa é sua função.
De acordo com o Ipea, o peso da participação dos auxílios nos últimos anos compensou as perdas no rendimento salarial, devido à inflação e ao desemprego, observadas nos anos de 1980 e 1990. Entre a população mais pobre, o número de domicílios que passaram a receber esses recursos passou de 8,3% em 1978 para 58,3% em 2008.
Essas transferências de recursos não ocorrem apenas nos estados mais pobres. O destaque é a população do Rio de Janeiro, onde se verificou que 25,5% da renda das famílias vem dessas transferências, situando-se em quarto lugar, atrás de Piauí (31,2%), Paraíba (27,5%) e Pernambuco (25,7%). A razão, diz Abrahão, está nas características da população fluminense: - O Rio tem uma grande proporção de idosos, superior à média nacional. Além disso, como ex-capital, o Rio concentra um número grande de funcionários públicos aposentados, cuja renda é superior à da previdência social.
Por isso, com 7% da população brasileira, o Rio aparece em segundo lugar no volume das transferências. O estado recebe 13,7% desses recursos, ficando atrás de São Paulo - que leva 23,5% do total, mas tem 21% da população.
O levantamento mostra ainda que, apesar do crescimento no número de pessoas cobertas pela previdência pública no Brasil - passou de 31,2 milhões em 1978 para 81,2 milhões em 2008 - o percentual de alcance do sistema pulou de 52% para 65% da população em idade ativa (entre 16 e 64 anos de idade).
Para idosos, cobertura é mais abrangente Por outro lado, para a população acima de 65 anos, a cobertura é bem mais abrangente.
Pelos dados do Ipea, o percentual de idosos atendidos passou de 73% em 1978 para 98% em 2008. Abrahão destaca esse desempenho: - Ser idoso no Brasil hoje significa ter alguma cobertura social, o que garante cidadania para uma camada da população que esquecida antigamente.
O Estado de S.Paulo - 23/07/2010
Três maiores bancos têm 56% dos depósitos no País
Clayton Netz, clayton.netz@grupoestado.com.br - O Estado de S.Paulo
Correio Braziliense - 23/07/2010
Antonio Machado
Por Antonio Machado
machado@cidadebiz.com.br
Sem pelo no ovo
Redução de ritmo da Selic reflete avaliação do BC de que o cenário mudou, e não foi o eleitoral
O aumento menor da taxa Selic pelo Banco Central só surpreendeu a parcela do mercado financeiro e economistas mais atentos à questão de sua influência sobre a remuneração dos papéis da dívida pública que para a função da política monetária. Não há pelo nesse ovo.
Parece desculpa de mau perdedor insinuar, como alguns analistas fizeram em entrevistas à imprensa, que o BC de Henrique Meirelles possa ter agido sob influência do presidente Lula, que só pensa em acomodar a ex-ministra Dilma Rousseff em sua cadeira. Se fosse isso, o que deveria estar em suspeição não é lá a autonomia do BC, mas a qualidade dos indicadores sobre a situação da economia.
Depois de dois aumentos da Selic de 0,75 ponto percentual cada um e de sinais evidentes de desaceleração da pressão inflacionária e dos fatores que a pressionavam, dos preços dos alimentos ao crédito ao consumo, não havia razão para o BC continuar freando a demanda com a mesma intensidade de antes, e prevista pelo mercado, para trazer a inflação para o centro da meta anual - 4,5%, com teto de 6,5%.
A decisão unânime da diretoria do BC foi por um aumento menor da Selic, de 0,50 ponto de percentagem, elevando-a para 10,75% ao ano - e acumulando, desde o início do processo, alta de 2 pontos. Não é o que acenavam o último relatório trimestral de inflação e a ata da reunião anterior do Comitê de Política Monetária (Copom).
Mas e daí? Se esse processo fosse automático, o Copom poderia ser dissolvido. Os fatos são que a inflação ao consumidor acompanhada pelo regime de metas, o IPCA, ficou estável em junho e, conforme a sua medida de meio de mês, chamada IPCA-15, teve deflação agora em julho de 0,09%. Nem o ortodoxo radical pode ignorar tal distensão.
No acumulado em 12 meses da variação do IPCA-15, houve alta de 4,74% - abaixo da cravada até junho, 5,06%, e muito perto da meta para o ano inteiro. As pressões originadas das commodities também refluíram, com os indícios de menor ímpeto da economia global, um dos fatores acompanhados de perto pelo BC ao aferir a Selic.
Sem riscos de fora
Na Europa, a instabilidade permanece, embora o risco sobre o euro seja menor. Nos EUA, a recuperação está abaixo da imaginada até um mês atrás. O cenário estaria "excepcionalmente incerto", segundo a expressão do presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, durante exposição ao Senado, quando admitiu que talvez haja necessidade de o governo Obama aumentar os estímulos à economia. Na China, enfim, como desejado pelo governo, também preocupado com a inflação e com a criação de oferta cada vez mais ociosa, a demanda perde força.
Europa e EUA são os grandes mercados do Brasil para a exportação de alimentos e de produtos manufaturados. E a China é a draga da produção mundial de commodities. Com os dois primeiros mercados a meio pau e o terceiro diminuindo o passo para respirar, é difícil supor dois riscos potenciais para a economia nacional: a inflação global reaparecer a médio prazo e, com ela, o aumento de juros.
PIB de 2011 é o alvo
O grande risco nos EUA e na Europa é com a ameaça de deflação, um agravante para a tibieza dos dois entre os três motores da demanda mundial. Já o motor chinês não deve ratear. Mas vai girar em ritmo menor, ainda assim impressionante: algo como vir de um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 11% anual para 8% a 9% este ano.
É pouco mais do que se espera no Brasil, em torno de 7%, mas com tendência encaminhada pela Selic, além de fatores derivados, como o aumento da inadimplência do crédito, de vir para 4,5% em 2011. É essa a medida de PIB, conforme o modelo de projeção do BC, que vai permitir à economia acomodar o aumento do investimento sem desviar a inflação da meta nem alargar o deficit das contas externas.
Folha de S.Paulo - 23/07/2010
Saque do FGTS para habitação supera resgate por aposentadoria
DE BRASÍLIA - O uso do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para compra ou reforma da casa própria bateu recorde e superou, pela primeira vez, os saques motivados pela aposentadoria de trabalhadores, de acordo com a Caixa Econômica Federal.
Foram sacados R$ 3,3 bilhões para aquisição, construção, amortização e redução de prestações no primeiro semestre, 26% acima do registrado no mesmo período de 2009.
Esse valor representa 14% dos saques, acima dos 13% referentes a trabalhadores que se aposentaram e retiraram seu dinheiro do fundo.
As demissões sem justa causa respondem pela maioria das retiradas (64%).
Também foram registrados, em junho, números recordes de empresas contribuindo e de trabalhadores com o benefício depositado em suas contas.