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Sexta-feira,  20/06/2003 - 15h48m

Juros: debate falso

O assunto do dia é a taxa de juro. Todos falam sobre o assunto com conhecimento de causa. Do presidente da República – passando pelo vice, é claro! – até o ministro. Do banqueiro ao bancário. Do empresário ao trabalhador. Do partido do Governo à Oposição (existe?). Do jornalista ao jornaleiro. Do economista ao cuidadoso – quem nunca paga juro. Tem gente até mudando o ditado: de médico, de louco e de perito em taxa de juro, todo mundo tem um pouco.

Como não sou médico e, ainda, não fiquei louco, vou dar, também, os meus pitáculos sobre o tema. Tem gente esperando o resultado da reunião do Copom como quem espera o resultado da Mega Sena acumulada. O vice-presidente da República quer torcer o pescoço dos membros do tal comitê e a fogueira da discussão tem muita lenha pra queimar.
O debate é falso. Quem paga taxa Selic, além do Governo e dos próprios banqueiros? Ninguém! O trabalhador, a dona de casa, o pequeno empresário, o professor, o profissional liberal, enfim, o pobre mortal, está longe de conseguir dinheiro pagando a tal da taxa. Até o funcionário do Banco – apesar do reconhecido esforço da nova diretoria – vai pagar no CDC Salário 2,9% ao mês e 5,5% no Cheque Ouro. Quem falou que os membros do Copom decidem taxa de juro do comércio, das financeiras, dos bancos, dos agiotas, das cooperativas de crédito, das caixas econômicas e dos programas de Governo?

Quem decide a taxa de juro é o custo do dinheiro. Os bancos têm uma máquina administrativa para movimentar e uma disponibilidade de recursos para emprestar. Quem paga a conta da máquina e os lucros exorbitantes dos banqueiros é o tomador de empréstimo. Simples. Quando o dinheiro para emprestar é pouco e a despesa administrativa é alta, a taxa sobe, independente do comitê. Quando a inadimplência sobe, aumenta o risco e a taxa de juro. Simples.

O Banco do Brasil tem metade dos seus ativos em títulos do tesouro, remunerado à taxa mais baixa do mercado. A outra metade tem uma grande parcela aplicada em programas de governo com taxas igualmente baixas. Um custo administrativo que não é pequeno e uma necessidade de dar um bom lucro – como resposta à sociedade (leia-se jornalistas críticos de plantão) – que é coberto com a rentabilidade do cheque ouro, CDC, etc. Como pode reduzir drasticamente as taxas de juro? Nem pela vontade do Vice!

O nosso Sistema Financeiro Nacional é muito pobre. Juntando todos os nossos bancos – públicos e privados – não dá um HSBC. É perto de 40% do PIB e deveria ser mais de 100%. Como fazê-lo crescer? Este é o grande desafio para este governo. O resto é debate falso.

Valmir Camilo

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